Attitude 132: Cosy

  • Existem palavras que se atravessam de forma recorrente. Cosy é uma delas. Usamo-la para falar de uma casa, de um ambiente, de uma determinada sensação de pertença… E talvez tenha sido por isso que sentimos necessidade de revisitá-la, procurando entender o seu sentido alegórico.
    Cosy fala, antes de mais, de um estado de abrigo emocional: um lugar onde podemos abrandar, baixar a guarda e permanecer. Nunca tivemos acesso a tantas referências, linguagens que nos chegam a uma velocidade difícil de acompanhar. E, no entanto, há qualquer coisa de paradoxal nesta abundância: entre tudo aquilo que temos disponível, nem sempre é fácil distinguir o que verdadeiramente nos cabe.
  • Será que o conforto reside, sobretudo, numa sensação de profunda intimidade, que se sobreleva quando encontramos o que realmente nos devolve a nós mesmos?
    Foi precisamente essa interrogação que nos acompanhou nesta edição. Em Paris, Romain Chancel parte da memória de um apartamento Art Déco para construir um espaço sem apagar marcas que remontam aos anos 30. No Yucatán, uma espécie de Gruta estabelece um diálogo profundo com a paisagem. Em Milão, a habitação de uma jovem família constrói-se à medida que a vida acontece. Em Istambul, a MS Istinye House descobre na luz uma forma de desacelerar. Já no Porto, a memória de uma atmosfera singular transforma uma residência numa “Extensão do Ser”. Diferentes interiores unidos pela mesma premissa: um lar constrói-se a partir do que escolhemos guardar.
  • Essa mesma sensação identificamo-la ainda mais dispersa. Em Reggio Emilia, um edifício com mais de quatro séculos deixa que a sua história permaneça. Em Afife, o antigo Convento de Pedro Homem de Mello revela uma quinta que abraçou a cultura que lhe deu origem, permitindo-nos, por instantes, escolher a que época queremos pertencer. No Alentejo, a Casa no Tempo reconhece beleza naquilo que decide não acrescentar. Em Quioto, Kiraku Tei recorda-nos que a contenção é a forma mais eloquente de expressão.
    Também a relação com o território trouxe-nos respostas. No México, um lugar que se deixa envolver pelas copas das árvores. Já na China, são os pássaros que habitam a arquitectura. Ainda não satisfeitos, partimos até Veneza. Entre imensos artesãos e objectos vindos de diferentes partes do mundo, fez-se luz na Homo Faber 2026. Uma experiência que se estendeu a diferentes encontros: da beleza como acto de resistência, em The Only True Protest Is Beauty, da Dries Van Noten Foundation, ao universo de Fortuny e Chahan Minassian. Numa cidade onde o tempo detém outra cadência, compreendemos que, na era da tecnologia e da inovação, o bem-fazer artesanal será das poucas coisas insubstituíveis.
  • E depois de tanto deambular, confirmámos o mais evidente: o conforto que procuramos ao longo da vida nasce, inevitavelmente, daquilo que escolhemos ter por perto. Está nas marcas que optamos por não apagar, nas matérias que envelhecem, na luz que nos emociona por só existir num determinado local… E foi aí que entendemos tudo: Cosy não se encerra numa definição. Vive na possibilidade de encontrar refúgio, seja este num lugar, numa melodia, numa pessoa ou até num instante, em que percepcionamos externamente aquilo que nos reconhece de volta.

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