Attitude 130: Nomad

  • “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Convocar Fernando Pessoa para abrir esta edição não é apenas um gesto de pertença literária – é um alinhamento conceptual com uma sensibilidade que se revela mais actual do que nunca. A sua escrita, marcada pela lucidez inquieta, antecipou aquilo que define o nosso tempo: a fragmentação do eu, as múltiplas narrativas e uma oscilação permanente entre o ser e o devir. Começar. Há sempre uma estranheza no primeiro gesto – uma consciência de que tudo está por definir. Iniciar um novo ciclo, como editora da ATTITUDE, com a edição Nomad, não é circunstancial. Há uma afinidade inevitável entre este tema e a forma como me meço. Sempre me interessou mais o intervalo do que a conclusão, a sobreposição do que a síntese e esse lugar continuum onde diferentes versões coexistem e se enaltecem. Mesmo quando não se resolvem.
  • Nesta edição, percorremos geografias e atmosferas para cruzar encontros que traduzem a condição Nomad. Em Marrakech, descobrimos uma cidade que já não vive da nostalgia exótica, mas de uma nova confiança criativa, onde artistas como Amine El Gotaibi ou Eric Van Hove reinterpretam a história marroquina com autenticidade. Entre lugares como Farasha Farmhouse ou Riad Rosemary, encontrámos espaços onde a magnificência deixa de ser excesso para se tornar compasso do tempo. 
  • Em Milão, mergulhámos na intensidade da Milan Design Week, para visitar marcas como Hermès, Minotti ou Molteni&C e a forma como exploram novas maneiras de habitar, através do diálogo entre craft, matéria e experiência sensorial. Entre instalações imersivas, objectos híbridos e a intersecção de diferentes dimensões, tornou-se evidente um traço comum ao estado contemporâneo: a criação de espaços que recusam uma leitura única e se constroem em camadas de intenção, memória e projecção. Lugares pensados não como estruturas fixas, mas como possibilidades em permanente reformulação.
  • Ao longo destas páginas, fomos além da mobilidade física, para abordar um estado de deslocação ontológica. O nomadismo não é apenas ir, é nunca chegar completamente. É viver nesse intervalo subtil entre pertença e ausência. Que forma pode ter um destino quando o sujeito que o experiencia está em constante transformação? Que valor assumem os objectos quando passam a registar passagem? E como se desenha um espaço que não procura conter, mas acompanhar? Há, na impermanência, uma dimensão quase mística. Não como ausência, mas como escolha não informada. Leveza não como vazio, mas como parte disponível. Redução não como perda, mas como libertação. Pessoa nunca habitou verdadeiramente um só lugar, mesmo quando imóvel. Talvez porque o verdadeiro nomadismo se meça em estados de espírito. É nesse território indizível, entre pensamento e matéria, entre interior e exterior, que esta edição começa. Não como resposta absoluta, mas como tentativa de aproximação.

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