journal
Fotografia: Roman Yakunin e Sofia Klyonova
25 / 06 / 2026
Produção: Karine Monié
Há casas que se constroem para preencher uma morada. E há outras que nascem de uma procura mais difícil de nomear: a vontade de criar um lugar onde a vida abrande, onde a quietude encontre espaço e onde cada objecto pareça ter chegado ali com a intenção de lhe acrescentar carácter.
O apartamento desenhado por Kamilya Zhakypova, da Alchemia Group, em Esentai City, Almaty, pertence a essa segunda categoria. Não nasceu de uma tendência, nem da vontade de reproduzir uma estética reconhecível. Nasceu de uma conversa e da história de uma mulher que já tinha habitado diferentes linguagens de interiores – do neoclássico ao provençal, passando pelo minimalismo depurado e tantas vezes repetido da contemporaneidade – até chegar à necessidade de traduzir uma sensação.
A cliente, viajante com uma relação profunda com a natureza e com as experiências acumuladas pelo caminho, trouxe consigo uma memória impossível de ignorar: o momento em que nadou no oceano, em Bali, junto de baleias azuis. Há imagens que não desaparecem; habitam dentro de nós e, anos mais tarde, transformam-se noutra coisa. Neste caso, tornaram-se matéria. Um silêncio em tons de azul, uma sensação de escala e a ideia de estar perante algo maior...
Kamilya procurou traduzir essa impressão sem a tornar literal. Dando lugar a uma casa que não pretende ser uma fuga da cidade, mas uma pausa dentro dela. Um lugar onde as paredes parecem respirar, onde a madeira revela as suas imperfeições e onde o gesso artesanal se transforma numa pele. “O uso do gesso como material unificador em todo o espaço é o que melhor expressa a minha abordagem ao design”, explica a designer, descrevendo a forma como este elemento estabelece continuidade entre arquitetura, luz e percepção espacial.
Existe uma beleza particular naquilo que não procura a perfeição. Os veios da madeira foram escolhidos precisamente pelas suas irregularidades e pelas marcas que denunciam a vida daquele material antes de chegar ali. Não se procurou esconder a natureza, mas deixá-la participar.
Os tons acompanham essa intenção: areia, argila, verdes suaves, pedra e tecidos naturais criam a sensação de uma paisagem aquecida pela luz do sol. Nada grita. Tudo sugere.
Talvez o maior desafio tenha sido precisamente este: criar emoção sem excesso. Fazer da casa um lugar de reconhecimento, que em vez de funcionar como arquivo de objetos acumulados, escolhe acompanhar a vida - devolvendo espaço à escuta, à presença e ao próprio estado de ser. Kamilya resume esta ideia de forma simples: “A casa não é uma concha isolada, é uma continuação do mundo que a rodeia.”
Para mais informações, visite o website Alchemia.group


