journal
Fotografia: David Zarzoso
02 / 02 / 2026
No coração de Ruzafa, um dos bairros mais vibrantes de Valência, nasce o Sornells 21, um espaço de trabalho partilhado criado por Ausiàs Pérez, fundador do T.O.T Studio, e pela arquitecta Paloma Bau.
Instalado num antigo espaço comercial com 170 m², o projecto propõe uma nova forma de pensar o estúdio criativo: flexível, comunitário e profundamente influenciado pela imagética urbana de Tóquio.
Mais do que uma colaboração estratégica, o Sornells 21 resulta de um encontro natural entre dois percursos complementares. O regresso de Ausiàs Pérez à cidade coincidiu com a procura de Paloma Bau por um novo estúdio, dando origem a um espaço onde diferentes metodologias, disciplinas e linguagens coexistem, e onde a arquitectura se assume como catalisador de encontros, trocas e sinergias espontâneas.
Desde o início, o projecto foi estruturado a partir de uma divisão clara de papéis: o T.O.T Studio liderou o conceito e a narrativa espacial, enquanto a equipa de Paloma Bau ficou responsável pela sua materialização arquitectónica. Esta dualidade reflete a essência de ambos os estúdios, entre pensamento estratégico, matéria, geometria e detalhe.
A inspiração surge de três situações quotidianas da cidade de Tóquio, reinterpretadas de forma subtil e não literal: a rua revestida a cerâmica, o bar izakaya, e a atmosfera relaxada de um onsen.
O percurso começa logo na entrada, pensada como um verdadeiro limiar conceptual. O revestimento em cerâmica branca 10x10 (comum em muitas fachadas urbanas japonesas) envolve o espaço, reforçado por um espelho no tecto que duplica a perceção volumétrica. O efeito é claro: a sensação de que o exterior se prolonga para dentro, diluindo fronteiras entre cidade e estúdio.
No interior, a organização do espaço gira em torno de um elemento central: um bar contínuo que percorre a planta em U. Executado em MDF tingido de preto, este elemento estrutura a circulação e os usos, funcionando simultaneamente como zona de trabalho, superfície expositiva e ponto de encontro.
No centro, uma mesa de 7,20 metros acomoda até vinte pessoas. Pensada como peça-chave do projecto, permite transformar o estúdio num espaço de refeições, apresentações, provas ou reuniões profissionais, sem perder a sua identidade base.
Suspenso sobre o bar, um candeeiro longitudinal desenhado à medida evoca os noren, os tradicionais tecidos japoneses que assinalam entradas de lojas e tavernas. O resultado é um ritmo horizontal que escala o espaço e cria uma atmosfera contida e acolhedora.
Uma das decisões mais singulares do projecto é a localização da cozinha fora do bar, invertendo a lógica típica do izakaya. Para equilibrar essa inversão, um espelho devolve simbolicamente a presença de quem cozinha ao interior do espaço, reforçando um jogo perceptivo que atravessa todo o projecto.
Essa lógica atinge o seu ponto mais inesperado na sala de reuniões, instalada numa reentrância original do espaço e inspirada no universo do onsen. O acesso faz-se por uma escada discreta escondida na marcenaria da cozinha, antecedida por uma porta azul Klein que anuncia a mudança de ambiente.
No interior, a contenção dá lugar à experimentação: tatamis, granito, cromatismos intensos, candeeiros que evocam chuveiros, espelhos com corrimões e uma falsa clarabóia com vegetação criam uma atmosfera quase lúdica. Um céu em néon substitui, com ironia, a habitual imagem do Monte Fuji.
As casas de banho adjacentes, revestidas a vermelho intenso, reforçam o contraste e acrescentam uma nota provocadora à narrativa espacial.
Materialidade, luz e flexibilidade
A estratégia material é coerente e repetitiva, marca do trabalho de Paloma Bau. O pavimento contínuo em microcimento claro unifica todo o espaço, enquanto o tecto em celulose projectada funciona como plano técnico e acústico, deixando instalações e calhas visíveis.
Os móveis fixos - mesas, cozinha e arrumação - são resolvidos em MDF cru, através de um sistema simples e honesto, dialogando com o carácter expositivo do estúdio. Todas as peças à medida foram produzidas pela empresa valenciana Lebrel Furniture.
A iluminação combina soluções técnicas da Arkoslight com candeeiros decorativos em papel de arroz e peças desenhadas especificamente para o projecto, criando um equilíbrio entre precisão e calor difuso.
O Sornells 21 é, acima de tudo, um espaço multifuncional. Um estúdio que se adapta, que acolhe trabalho diário, colaboração, eventos e celebrações, sem necessidade de grandes transformações. Arquitectonicamente, afirma-se como um palco flexível onde o profissional e o colectivo se cruzam, e onde a criatividade acontece tanto nos projectos como nos encontros. Um lugar em Valência que olha para Tóquio, mas que responde, acima de tudo, a uma nova cultura de trabalho: mais aberta, mais partilhada e mais humana.
Mais do que uma colaboração estratégica, o Sornells 21 resulta de um encontro natural entre dois percursos complementares. O regresso de Ausiàs Pérez à cidade coincidiu com a procura de Paloma Bau por um novo estúdio, dando origem a um espaço onde diferentes metodologias, disciplinas e linguagens coexistem, e onde a arquitectura se assume como catalisador de encontros, trocas e sinergias espontâneas.
Desde o início, o projecto foi estruturado a partir de uma divisão clara de papéis: o T.O.T Studio liderou o conceito e a narrativa espacial, enquanto a equipa de Paloma Bau ficou responsável pela sua materialização arquitectónica. Esta dualidade reflete a essência de ambos os estúdios, entre pensamento estratégico, matéria, geometria e detalhe.
A inspiração surge de três situações quotidianas da cidade de Tóquio, reinterpretadas de forma subtil e não literal: a rua revestida a cerâmica, o bar izakaya, e a atmosfera relaxada de um onsen.
O percurso começa logo na entrada, pensada como um verdadeiro limiar conceptual. O revestimento em cerâmica branca 10x10 (comum em muitas fachadas urbanas japonesas) envolve o espaço, reforçado por um espelho no tecto que duplica a perceção volumétrica. O efeito é claro: a sensação de que o exterior se prolonga para dentro, diluindo fronteiras entre cidade e estúdio.
No interior, a organização do espaço gira em torno de um elemento central: um bar contínuo que percorre a planta em U. Executado em MDF tingido de preto, este elemento estrutura a circulação e os usos, funcionando simultaneamente como zona de trabalho, superfície expositiva e ponto de encontro.
No centro, uma mesa de 7,20 metros acomoda até vinte pessoas. Pensada como peça-chave do projecto, permite transformar o estúdio num espaço de refeições, apresentações, provas ou reuniões profissionais, sem perder a sua identidade base.
Suspenso sobre o bar, um candeeiro longitudinal desenhado à medida evoca os noren, os tradicionais tecidos japoneses que assinalam entradas de lojas e tavernas. O resultado é um ritmo horizontal que escala o espaço e cria uma atmosfera contida e acolhedora.
Uma das decisões mais singulares do projecto é a localização da cozinha fora do bar, invertendo a lógica típica do izakaya. Para equilibrar essa inversão, um espelho devolve simbolicamente a presença de quem cozinha ao interior do espaço, reforçando um jogo perceptivo que atravessa todo o projecto.
Essa lógica atinge o seu ponto mais inesperado na sala de reuniões, instalada numa reentrância original do espaço e inspirada no universo do onsen. O acesso faz-se por uma escada discreta escondida na marcenaria da cozinha, antecedida por uma porta azul Klein que anuncia a mudança de ambiente.
No interior, a contenção dá lugar à experimentação: tatamis, granito, cromatismos intensos, candeeiros que evocam chuveiros, espelhos com corrimões e uma falsa clarabóia com vegetação criam uma atmosfera quase lúdica. Um céu em néon substitui, com ironia, a habitual imagem do Monte Fuji.
As casas de banho adjacentes, revestidas a vermelho intenso, reforçam o contraste e acrescentam uma nota provocadora à narrativa espacial.
Materialidade, luz e flexibilidade
A estratégia material é coerente e repetitiva, marca do trabalho de Paloma Bau. O pavimento contínuo em microcimento claro unifica todo o espaço, enquanto o tecto em celulose projectada funciona como plano técnico e acústico, deixando instalações e calhas visíveis.
Os móveis fixos - mesas, cozinha e arrumação - são resolvidos em MDF cru, através de um sistema simples e honesto, dialogando com o carácter expositivo do estúdio. Todas as peças à medida foram produzidas pela empresa valenciana Lebrel Furniture.
A iluminação combina soluções técnicas da Arkoslight com candeeiros decorativos em papel de arroz e peças desenhadas especificamente para o projecto, criando um equilíbrio entre precisão e calor difuso.
O Sornells 21 é, acima de tudo, um espaço multifuncional. Um estúdio que se adapta, que acolhe trabalho diário, colaboração, eventos e celebrações, sem necessidade de grandes transformações. Arquitectonicamente, afirma-se como um palco flexível onde o profissional e o colectivo se cruzam, e onde a criatividade acontece tanto nos projectos como nos encontros. Um lugar em Valência que olha para Tóquio, mas que responde, acima de tudo, a uma nova cultura de trabalho: mais aberta, mais partilhada e mais humana.


