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Fotografia: Tijs Vervecken 
04 / 08 / 2026
Já se questionaram sobre o facto de a matéria possuir um tempo muito próprio? Ao resistir à velocidade como condição, ela pede-nos contemplação, devolvendo-nos uma experiência que o universo digital dificilmente consegue replicar: a do toque, do peso e da presença. 
 
É precisamente nesse território que se desenvolve a prática criativa de Delphine Cordie, designer e artista belga que faz da matéria um meio para despertar experiências sensoriais e transformar a forma como nos relacionamos com o espaço.

Desde cedo se interessou pela capacidade de um objecto transportar memória, emoção e intimidade. Hoje, essa procura manifesta-se numa prática plural, onde as esculturas murais surgem como uma extensão natural do seu percurso - joias que abandonam o corpo para ganhar escala na arquitetura, preservando, contudo, a mesma delicadeza e atenção ao detalhe.

No atelier que partilha, em Gante, com o marido, o arquitecto e designer Benoît Viaene, cada obra nasce de um processo lento de composição, onde a experimentação ocupa um lugar tão importante quanto a técnica. Pedra natural, madeira, metal, têxteis e materiais encontrados reúnem-se de forma intuitiva, dando origem a composições depuradas, construídas a partir do equilíbrio entre texturas, volumes e vazios. A sua linguagem afasta-se do excesso e da ornamentação para privilegiar a contenção - uma sobriedade que não resulta da ausência, mas de uma escolha consciente.
  • Delphine Cordie
As obras de Cordie não procuram captar a atenção pelo impacto imediato. Preferem construir uma presença discreta. Habitam os interiores como quem se instala sem impor a sua existência, convidando quem as observa a desacelerar e a restabelecer uma relação física com a matéria.

Talvez seja por isso que a artista recorre à abstração. Feminilidade, vulnerabilidade e equilíbrio não surgem como conceitos ilustrados, mas como qualidades inscritas na própria composição das obras. A emoção revela-se na proporção, no ritmo, nas tensões entre materiais e na forma como a luz percorre as superfícies. O significado nunca é imposto; revela-se lentamente, à medida que o olhar permanece. 
  • Delphine Cordie
  • Delphine Cordie
  • Delphine Cordie
  • Delphine Cordie
  • Delphine Cordie
  • Delphine Cordie
A sua mais recente série, “I Think I Said Too Much”, leva esta investigação um passo mais longe. O ponto de partida é uma experiência profundamente humana: o instante de silêncio que sucede à honestidade, quando a vulnerabilidade dá lugar à dúvida e nos interrogamos se revelámos demasiado. As composições habitam esse território frágil entre a confiança e a hesitação, criando obras que não procuram explicar um sentimento, mas antes oferecer um espaço onde ele possa existir.

Num contexto em que a nossa relação com os objectos é cada vez mais mediada pela tecnologia e pela realidade virtual, o trabalho de Delphine Cordie afirma uma expressão artística ancorada na presença. As suas esculturas recordam-nos que alguns dos gestos mais significativos continuam a nascer da serenidade, da pausa, do silêncio e da necessidade de reencontrar no mundo físico, um lugar de permanência.
 
  • Delphine Cordie
  • Delphine Cordie
  • Delphine Cordie
  • Delphine Cordie
  • Delphine Cordie
  • Delphine Cordie
Para mais informações visite o website Delphine Cordie
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