Attitude 131: Private

  • Nesta edição partimos de uma palavra que, automaticamente, remete para recolhimento: Private. Há uma parte de nós que só existe quando a porta se fecha. Não pela procura de fazer desaparecer o mundo lá fora, mas porque deixamos de sentir a necessidade de lhe responder. É nesse espaço que as ideias amadurecem e que a identidade se revela sem ruído.

    Durante muito tempo acreditei que os espaços onde habitamos eram apenas uma consequência de escolhas estéticas. Hoje percebo que cada casa, cada atelier ou cada retiro é uma extensão do ser. Mapas compostos por memórias, referências, afectos e pequenas decisões que, acumuladas ao longo da vida, contam uma história.
  • Foi precisamente tudo isso que nos fez ir à descoberta dos universos que estão por detrás de quem se dedica a dar forma a outras realidades. No Ato Criativo, Rick Rubin sugere a criação como um processo de escuta interior, do qual emerge a ideia de que o artista não cria algo inteiramente novo, apenas revela aquilo que já lá existia. Será que o nosso refúgio mais íntimo nasce dessa memória invisível, capaz de atravessar os sentidos até encontrar onde, finalmente, repousar?

    Ao longo destas páginas são variadas as respostas. No México, deparamo-nos com uma Casa que dissolve barreiras entre arquitectura e paisagem. Na China, um abrigo que cresce ao sabor da vida. Em Antuérpia, objectos que ultrapassam a mera decoração para se tornarem parte da essência. E, por fim, a certeza de que até os espaços de trabalho podem ser profundamente pessoais.
     
  • Mas Private não vive apenas entre quatro paredes. Também se manifesta nos locais que escolhemos explorar e na forma como nos aproximamos deles. Nesta edição seguimos o instinto até Genebra onde, numa visita à manufactura da Patek Philippe, compreendemos que a exclusividade se constrói no tempo dedicado a cada gesto. Passámos ainda pela Lisbon Design Week, que voltou a abrir portas para celebrar o diálogo entre o design e o espaço. Mais tarde, a vontade de retornar à Casa do Rio, no Douro, falou mais alto. Onze anos depois retiramos de lá um ensinamento profundo: o mundo continuará imenso, e nós pequenos dentro dele devemos vivê-lo com intenção. Percorremos o Mediterrâneo até ao sul de França, para chegar a um lugar onde luz e sombra se unem para comporem uma partitura orquestrada pelo mar. E, já de regresso a casa, fomos conhecer a Mr Mood, uma marca portuense que escolhe fazer do Verão um estado de espírito permanente e da leveza uma decisão consciente. 
  • Ao deambular por estes locais, uma ideia atravessou-nos: jamais haverá uma fórmula, muito menos uma só resposta para aquilo que nos define. Existem apenas pessoas únicas. A forma como olham, como guardam, como escolhem, como se rodeiam… Numa era em que tanta coisa se repete como um eco da realidade exterior, convidamo-lo, nestas páginas, a entrar em espaços de todas as cores. Para inevitavelmente deixar de lado a necessidade de validação ou as audiências em massa. Uma viagem por locais onde a escala se depara com o SER que lhe dá origem.

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