20 / 05 / 2026
Constança Entrudo estudou Textile Design, com especialização em estamparia, na Central Saint Martins, em Londres, colaborou com Balmain e Peter Pilotto e, em 2018, lançou a marca com o seu nome.
Numa abordagem fluida e livre, o seu trabalho é o reflexo de uma cultura em transição. Através dos tecidos explora os limites da experimentação reformulando a ideia de artesanato como uma forma de inteligência, que envolve novas gerações e linguagens desafiantes.
Alexandra Novo: Quem são os artesãos de hoje? Qual a sua visão de futuro e que aspectos são fundamentais na sua prática diária? Constança Entrudo: Os artesãos de hoje são, muitas vezes, designers – ou talvez a distinção entre ambos já não seja tão relevante. É, em grande parte, uma questão de semântica. O que realmente importa é a relação com o fazer. Interessa-me pensar o artesão contemporâneo como alguém que é muito mais do que um técnico. Pode ser quem desenha, questiona, testa e redefine processos. É muito importante estimular o pensamento crítico em todas as fases de desenvolvimento. Para mim, o processo de design não acaba quando a peça está “desenhada” – é uma constante construção e comunicação ao longo de todo o processo.
No seu estúdio desenvolve manualmente tecidos e estampados que cruzam fronteiras e disciplinas, não se limitando a sua aplicação à moda, mas também à arte e aos interiores. Que projectos tem desenvolvido nessas áreas paralelas? Temos desenvolvido vários projectos na área dos interiores – algo que há tanto tempo queria fazer. O primeiro que surgiu foi o Bela, o speakeasy dentro do restaurante Barbela, em Lisboa. Começou com uma encomenda de uma cortina de linhas estampadas, que iria revestir e envolver todo o espaço, e acabou por se transformar num projecto completo, onde fizemos o estudo de cor, desenhámos chão (um terrazzo “manual” feito em colaboração com a artista Maria Ana Vasco Costa), mobiliário, luz e, claro, a cortina, que é a peça central. Este projecto tem um enorme significado para mim, reflecte o meu trabalho de forma tão clara. Temos colaborado também com o atelier DC.AD, do arquitecto Duarte Caldas, com quem desenvolvemos o projecto têxtil do restaurante Sophia, do seu atelier, e temos ainda outros três projectos previstos para este ano.
Recentemente participou num debate na ONU – Organização das Nações Unidas – sobre uso da Inteligência Artificial (IA) no sector têxtil. A IA é uma aliada ou uma ameaça? A IA tornou-se fundamental para mim, mas recentemente tenho sentido vontade de fazer o esforço de desenhar ou escrever sem esta bengala constante. No outro dia li uma crónica do Tim Harford sobre a ideia de self-maintenance, que falava da importância de saber manter, mais do que melhorar. Tenho andado a pensar muito nisso no contexto da nossa relação com a IA. Já não estamos a lidar com máquinas que conseguimos desmontar, perceber, ajustar. Acho que esta distância, este mistério, é perigoso. Deixa para trás algo importante, que é perceber o processo. Seja através da tecnologia ou do trabalho manual, para mim é essencial não perder essa ligação, aquilo a que chamamos de savoir-faire. No entanto, há também uma outra questão que me preocupa: o mau uso das palavras em prol da criação de narrativas. Preocupa-me especialmente o uso de termos como “craft” (uma das palavras preferidas do ChatGPT, por exemplo). Hoje em dia tudo é “craft”: vemos campanhas de fast fashion a falar de “crafting stories”, ou produtos feitos em massa a serem apresentados como “crafted” ou “hand finished”, quando na verdade não são. Acredito que muitas pessoas nem se apercebem que perderam, de certa forma, o controlo sobre o conteúdo que estão a produzir. E é importante que isso seja questionado, caso contrário, palavras como “transparência” – que também parecem ser muito usadas pela IA –, vão acabar por perder completamente o seu significado.
Alexandra Novo: Quem são os artesãos de hoje? Qual a sua visão de futuro e que aspectos são fundamentais na sua prática diária? Constança Entrudo: Os artesãos de hoje são, muitas vezes, designers – ou talvez a distinção entre ambos já não seja tão relevante. É, em grande parte, uma questão de semântica. O que realmente importa é a relação com o fazer. Interessa-me pensar o artesão contemporâneo como alguém que é muito mais do que um técnico. Pode ser quem desenha, questiona, testa e redefine processos. É muito importante estimular o pensamento crítico em todas as fases de desenvolvimento. Para mim, o processo de design não acaba quando a peça está “desenhada” – é uma constante construção e comunicação ao longo de todo o processo.
No seu estúdio desenvolve manualmente tecidos e estampados que cruzam fronteiras e disciplinas, não se limitando a sua aplicação à moda, mas também à arte e aos interiores. Que projectos tem desenvolvido nessas áreas paralelas? Temos desenvolvido vários projectos na área dos interiores – algo que há tanto tempo queria fazer. O primeiro que surgiu foi o Bela, o speakeasy dentro do restaurante Barbela, em Lisboa. Começou com uma encomenda de uma cortina de linhas estampadas, que iria revestir e envolver todo o espaço, e acabou por se transformar num projecto completo, onde fizemos o estudo de cor, desenhámos chão (um terrazzo “manual” feito em colaboração com a artista Maria Ana Vasco Costa), mobiliário, luz e, claro, a cortina, que é a peça central. Este projecto tem um enorme significado para mim, reflecte o meu trabalho de forma tão clara. Temos colaborado também com o atelier DC.AD, do arquitecto Duarte Caldas, com quem desenvolvemos o projecto têxtil do restaurante Sophia, do seu atelier, e temos ainda outros três projectos previstos para este ano.
Recentemente participou num debate na ONU – Organização das Nações Unidas – sobre uso da Inteligência Artificial (IA) no sector têxtil. A IA é uma aliada ou uma ameaça? A IA tornou-se fundamental para mim, mas recentemente tenho sentido vontade de fazer o esforço de desenhar ou escrever sem esta bengala constante. No outro dia li uma crónica do Tim Harford sobre a ideia de self-maintenance, que falava da importância de saber manter, mais do que melhorar. Tenho andado a pensar muito nisso no contexto da nossa relação com a IA. Já não estamos a lidar com máquinas que conseguimos desmontar, perceber, ajustar. Acho que esta distância, este mistério, é perigoso. Deixa para trás algo importante, que é perceber o processo. Seja através da tecnologia ou do trabalho manual, para mim é essencial não perder essa ligação, aquilo a que chamamos de savoir-faire. No entanto, há também uma outra questão que me preocupa: o mau uso das palavras em prol da criação de narrativas. Preocupa-me especialmente o uso de termos como “craft” (uma das palavras preferidas do ChatGPT, por exemplo). Hoje em dia tudo é “craft”: vemos campanhas de fast fashion a falar de “crafting stories”, ou produtos feitos em massa a serem apresentados como “crafted” ou “hand finished”, quando na verdade não são. Acredito que muitas pessoas nem se apercebem que perderam, de certa forma, o controlo sobre o conteúdo que estão a produzir. E é importante que isso seja questionado, caso contrário, palavras como “transparência” – que também parecem ser muito usadas pela IA –, vão acabar por perder completamente o seu significado.
Um dos aspectos mais visíveis da sua linguagem está na técnica que criou, unwoven (“destecelagem”). Em que consiste e qual a simbologia associada a este método? Esta técnica unwoven, que antes chamava de threads, é algo que exploro desde o início. É quase uma rejeição do tear e das tradições a ele associadas. A tecelagem tradicional cruza dois sistemas de fios – a teia e a trama –, mas a certo ponto esta estrutura começou a parecer-me limitadora. Foi assim que comecei a desenvolver esta técnica onde existe apenas a teia, criando um tecido com um aspecto quase em tensão, onde os fios parecem soltos. O processo baseia-se na ligação de fios (essencialmente a teia), todos colocados manualmente, fio a fio, directamente sobre o molde, o que permite também reduzir o desperdício ao mínimo. Cada peça pode demorar mais de uma semana a ser feita. Apesar de o resultado poder parecer imperfeito, resulta de um processo longo de investigação e de desenvolvimento técnico.


