São Lourenço do Barrocal

Regresso às Origens
11 / 09 / 2016
Fotos: Carlos Cezanne
Texto: Joana Jervell
Entrevista por Alda Galsterer e Verónica de Mello (REDE art agency)

barrocal.pt/pt/ 
Pouco falta para o relógio do carro marcar as 20.00h e as temperaturas quentes ainda se fazem sentir nestas paragens soalheiras alentejanas, vestidas de um dourado intenso, pontuado pelo verde desbotado das oliveiras, sobreiros e azinheiras a perder de vista. Enquanto percorremos a calçada recuperada do monte, emoldurada pelo branco das casas sobre as quais se estende um imenso céu límpido, é o chilrear ininterrupto das andorinhas que nos faz companhia até à porta do quarto. Em frente, avistamos ao longe a aldeia de Monsaraz, encantadora no alto das suas muralhas.
Estamos em São Lourenço do Barrocal, em tempos uma antiga propriedade agrícola e hoje convertida num idílico retiro rural que se estende por 780 hectares. Pertencente à sua família há mais de 200 anos, José António Uva decide recuperar este monte, entretanto deteriorado, fazendo-o rejuvenescer como espaço dedicado à hospitalidade e retomando a sua vertente agrícola e o conceito de comunidade que ali existia. É ao arquitecto Eduardo Souto de Moura a quem confia o projecto de reabilitação optando-se, desde o início, por não se adicionarem volumes novos aos edifícios existentes. Aí residiu o maior desafio, ou seja, “olhar para as antigas estruturas - o lagar de azeite, as vacarias, o ovil, as salas dos ofícios, a praça de touros, as casas dos trabalhadores, entre outras - e dar-lhe uma vida nova, percebendo que espaços iriam acolher o restaurante, o spa, a loja, os quartos e as casas”. José António refere ainda a necessidade de “alocar os recursos certos para valorizar o sentimento de pertença de um material a um sítio”, dando como exemplo os tijolos de terracota usados no chão e feitos à mão em São Pedro do Corval, a recuperação das telhas originais “que já não se fazem”, ressalva, ou as paredes caiadas sobre reboco de areia como manda o método tradicional. Da linguagem arquitectónica aos interiores - a cargo de Ana Anahory e Felipa Almeida (que entrevistámos mais à frente neste artigo) - notamos essa preocupação criteriosa levada ao mais ínfimo detalhe. Materiais e mobiliário evocam a cultura e identidade de uma região, e cada objecto parece ter uma história curiosa para nos contar, reavivando memórias de uma família que não nos cansamos de descobrir. Os interiores oferecem um conforto moderno e despretensioso, reflectindo bem o carácter autêntico do lugar e o seu enquadramento natural. A esta atmosfera genuína e acolhedora, junta-se a simpatia de uma equipa dedicada, e percebemos o quão fácil é sentirmo-nos em casa em São Lourenço do Barrocal.
Estamos no antigo pomar e, ao seguirmos pelas lajes de xisto aquecidas pelo sol que nos levam à piscina, ouvimos o relinchar dos cavalos que circulam livremente pela herdade. Uma animada profusão de borboletas convive sobre o relvado que se enche de pontos brancos saltitantes. Mais ao fundo, águias atentas sobrevoam vastas planícies que conservam ainda vestígios arqueológicos de povoados pré-históricos que aqui se instalaram - destaque para os diversos afloramentos rochosos (os chamados ‘barrocais’ que dão nome ao local), o menir, as várias antas, a vila e barragem romanas. Sentados nas amplas espreguiçadeiras usufruímos desta quietude rural que nos convida a descontrair e nos aproxima da Natureza. Poderíamos ficar horas a observá-la, apreciando gestos pequenos de uma beleza simples que nos deleita os sentidos. À nossa volta reinam o silêncio e a tranquilidade, e disfrutamos da sensação plena de retiro que este lugar nos desperta. Aqui o ritmo de vida abranda, pautado por horas que mais parecem converter-se em dias, e dias que se confundem com semanas.

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Conversámos com Ana Anahory e Felipa Almeida, as responsáveis pelo projecto de decoração de São Lourenço do Barrocal.

Qual foi o vosso ponto de partida?
Partimos do passado do monte e da história da família de José António Uva. Começámos por estabelecer um inventário de todo o mobiliário da família herdado ao longo dos anos e que podia ser usado para o projecto. Aproveitámos todas as madeiras antigas das portas e portadas do monte que reutilizámos para fazer mesas de apoio. Tivémos a sorte de a família ter guardado muitos objectos, documentos, fotografias, cartas e adereços que se revelaram preciosos para o projecto de decoração. Desafiámos a artista Henriette Arcelin para fazer ilustrações inspiradas na fauna e flora alentejana sobre antigos manuscritos de finais de século XIX e início de século XX que pertenciam a São Lourenço do Barrocal. Convidámos, também, a artista Joana Astolfi que produziu um “cabinet de curiosités” para uma instalação no restaurante com objectos e memórias da família.

Leia a história completa na versão impressa da Attitude #71 Art Report