A casa que abraça

Riba de Ave, Portugal
08 / 07 / 2016
Fotos: Carlos Cezanne
Texto: Virgínia Capoto
Produção: Ana Lapão 
As casas têm memória. Quando ela é feliz, abraçam. Na da Quinta do Freixieiro reverbera esta energia envolvente, a soma de muitos afectos. Conhecê-la é imergir numa história antiga, que ganha novos dias tranquilos e inspiradores. E é descobrir como pessoas e lugares se fazem mutuamente.

É uma típica casa senhorial minhota do séc. XVIII e o coração de uma propriedade com um romântico jardim de buxo, árvores e plantas raras na região, vinhedo, um bosque de carvalhos e castanheiros, mais horta e jardim de ervas de cheiro. O granito que a molda estende-se por uma eira soalheira onde fica a piscina.

O tempo não lhe pesa, antes traz ao presente o perfume da infância. Isabel Faria lembra-se de em pequena a visitar. Pertencia a uns tios sem filhos, que “adoravam receber os sobrinhos. Eu entretinha-me a explorar a casa, para mim era encantada. Parte dela estava sempre fechada, mas eu recebia as enormes chaves de ferro e abria as portas”. Mergulhava num mundo cálido, povoado de livros antigos.

Outra menina brincou aqui, há mais de um século, e com ela começou a história da família. Filha dos caseiros, foi adoptada pelas três senhoras solteiras que viviam na quinta, à época parte da Herdade do Freixieiro. Era a bisavó de Isabel e “foi criada como uma princesa”. Teve quatro filhos e morreu nova; às três senhoras “deixou netos de alma”, herdeiros naturais.

Já num passado recente, a casa correu o risco de ser alienada. Isabel resistiu: “Para mim tem um valor emocional muito grande, é a minha paixão desde pequena”. Prescindiu da casa que tinha no Porto para “agarrar o Freixieiro”, onde agora vive.

Situada em Riba de Ave, a 10 minutos de Guimarães e 30 minutos do Porto, a quinta tem todos os espaços cuidados e a casa, de traça antiga, totalmente restaurada. São 500 metros quadrados contados em seis suítes, cozinha descomunal e várias salas: a de jantar, com uma enorme mesa; a “sala de Verão”, com varandas para a piscina; a “sala de Inverno” e biblioteca, com lareira; e a “sala de ioga e meditação”, práticas diárias da proprietária. Há, ainda, a lavandaria e outros domínios da rotina doméstica.

Isabel Faria assumiu a decoração, dotando o espaço de peças com significado pessoal. Fala-nos dos quadros pintados pela mãe, mas também de criações suas, como os trabalhos de colagem com fotografias das filhas ou os candelabros que personalizou. E menciona a colaboração de Irene Ferreira da Silva (“com as lindas cortinas em patchwork”) e Renata da Oficina dos Sentidos (“na pintura de símbolos, modificação de móveis e criação de candeeiros de jardim”).